Escrevi esse texto para a edição nº 13 do jornal SobPressão, produto final da disciplina Projeto Experimental em jornalismo impresso do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor).Foi sem dúvida uma sessão nostalgia. Dedico essa história à minha família, e em especial, à minha mãe, mulher a quem devo o bem mais precioso, a vida.
A melhor negociadora da Feira
Todos os domingos o ritual lá em casa era sempre o mesmo. Domingo era dia de feira. Minha mãe me acordava às 6 horas da manhã. Com muito sacrifício, eu levantava e tomava café, revoltado por ter que acordar cedo no domingo. Caminhávamos cerca de um quilômetro. Às 7 já estávamos dentro da feira. Procurávamos banana, laranja, chuchu, coentro, cebolinha e o artigo que ela me deixava escolher: Rapadura de coco. E, que por sinal, era o meu favorito. Era a minha alegria, a recompensa por todo o sacrifício de “perder” a manhã de domingo para estar ali.
Carregava as sacolas cheias de compras com minha mãe, serpenteando pelos caminhos estreitos das ruas improvisadas da feira com uma raiva de menino levado. Mas os olhos, atentos a tudo, logo se alegravam com gritos e chamamentos para produtos, que depois gostava de imitar. Com as imitações conseguia arrancar sorrisos de minha mãe, o que fazia com que esquecesse tudo o que antes parecera ruim.
Eu reclamava de ir à feira, praguejava, queria dormir mais aos domingos, mas minha mãe adorava aquilo. Ela tinha uma habilidade tão grande em negociar com os vendedores que me impressionava. Nunca comprava pelo preço pedido, sempre pechinchava e ganhava desconto. Ao final de mais um domingo, voltávamos para casa com pelo menos duas sacolas cheias de verduras, frutas e rapadura, é claro.
A volta era “pesada”, pois as sacolas, agora cheias, faziam minhas mãos de menino ficarem vermelhas, quase com bolhas. Quando fui ficando mais velho, ia de bicicleta para carregar minha mãe e as compras. Virei adulto, a feira mudou, mas minha mãe, no auge dos seus 65 anos, ainda ia todos os domingos para lá. Já não a acompanhava até as barracas, ficava esperando fora das ruas cheias da feira, uma outra irmã ia com ela e trazia as compras até o carro. A quantidade já não era a mesma, a família estava diminuindo, mas o ritual permanecia.
Passados alguns anos, minha mãe já não faz mais feira “nesse mundo”. Eu mudei, já não moro mais em Messejana. A feira livre também mudou, mas continua despertando o mesmo sentimento em mim. Ao voltar à feira e sentir o calor humano, sons e cheiros de minha infância e adolescência, confesso que senti um misto de saudade e raiva. Saudade por tudo de bom que aqueles momentos representavam, e raiva por não ter curtido mais aqueles domingos. Contudo, raiva não é um sentimento bom para se ter. Pensando bem, vivi intensamente aqueles dias, fui feliz e acho que minha mãe também, a melhor negociadora da Feira de Livre de Messejana.
