quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Saudade

Escrevi esse texto para a edição nº 13 do jornal SobPressão, produto final da disciplina Projeto Experimental em jornalismo impresso do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor).
Foi sem dúvida uma sessão nostalgia. Dedico essa história à minha família, e em especial, à minha mãe, mulher a quem devo o bem mais precioso, a vida.

A melhor negociadora da Feira
Todos os domingos o ritual lá em casa era sempre o mesmo. Domingo era dia de feira. Minha mãe me acordava às 6 horas da manhã. Com muito sacrifício, eu levantava e tomava café, revoltado por ter que acordar cedo no domingo. Caminhávamos cerca de um quilômetro. Às 7 já estávamos dentro da feira. Procurávamos banana, laranja, chuchu, coentro, cebolinha e o artigo que ela me deixava escolher: Rapadura de coco. E, que por sinal, era o meu favorito. Era a minha alegria, a recompensa por todo o sacrifício de “perder” a manhã de domingo para estar ali.
Carregava as sacolas cheias de compras com minha mãe, serpenteando pelos caminhos estreitos das ruas improvisadas da feira com uma raiva de menino levado. Mas os olhos, atentos a tudo, logo se alegravam com gritos e chamamentos para produtos, que depois gostava de imitar. Com as imitações conseguia arrancar sorrisos de minha mãe, o que fazia com que esquecesse tudo o que antes parecera ruim.
Eu reclamava de ir à feira, praguejava, queria dormir mais aos domingos, mas minha mãe adorava aquilo. Ela tinha uma habilidade tão grande em negociar com os vendedores que me impressionava. Nunca comprava pelo preço pedido, sempre pechinchava e ganhava desconto. Ao final de mais um domingo, voltávamos para casa com pelo menos duas sacolas cheias de verduras, frutas e rapadura, é claro.
A volta era “pesada”, pois as sacolas, agora cheias, faziam minhas mãos de menino ficarem vermelhas, quase com bolhas. Quando fui ficando mais velho, ia de bicicleta para carregar minha mãe e as compras. Virei adulto, a feira mudou, mas minha mãe, no auge dos seus 65 anos, ainda ia todos os domingos para lá. Já não a acompanhava até as barracas, ficava esperando fora das ruas cheias da feira, uma outra irmã ia com ela e trazia as compras até o carro. A quantidade já não era a mesma, a família estava diminuindo, mas o ritual permanecia.
Passados alguns anos, minha mãe já não faz mais feira “nesse mundo”. Eu mudei, já não moro mais em Messejana. A feira livre também mudou, mas continua despertando o mesmo sentimento em mim. Ao voltar à feira e sentir o calor humano, sons e cheiros de minha infância e adolescência, confesso que senti um misto de saudade e raiva. Saudade por tudo de bom que aqueles momentos representavam, e raiva por não ter curtido mais aqueles domingos. Contudo, raiva não é um sentimento bom para se ter. Pensando bem, vivi intensamente aqueles dias, fui feliz e acho que minha mãe também, a melhor negociadora da Feira de Livre de Messejana.

domingo, 18 de março de 2007

O novo jornalista

Do livro "Os Elementos do Jornalismo - O que os jornalistas devem saber e o público exigir".
"O novo jornalista não decide mais o que o público deve saber. Ele ajuda o público a pôr ordem nas coisas... ...A primeira tarefa dessa mistura de jornalista e explicador é checar se a informação é confiável e ordená-la de forma que o leitor possa entendê-la."

Assim como as escolas de comunicação têm surgido aos montes, esse tipo de jornalista precisa se proliferar nas universidades e nas redações do Brasil e no mundo A democracia agradece.

domingo, 11 de março de 2007

Olhar amoroso

Ao reler o texto da professora e pesquisadora Cremilda Medina que tem o título "olhar amoroso", optei por colocar no blog, o nome do artigo. Em breve trarei trechos do referido ensaio da Cremilda Medina. Quem quiser conhecer um pouco mais dessa pesquisadora do jornalismo é só ir no site http://www.eca.usp.br/pjbr/arquivos/dic_c7.htm .

quarta-feira, 7 de março de 2007

Extensão da memória

“Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é sem dúvida o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.
Texto extraído do ensaio O livro, do escritor argentino Jorge Luis Borges.

Lindo! A propósito, existem alguns pessimistas que apostam que o fim do livro está próximo. Duvido.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

A fortaleza foi invadida

No último final de semana me bateu uma angústia que tinha razão de ser. Nem no meu banheiro posso mais ficar à vontade. Quem mora em condomínio fechado de casas sabe do que eu estou falando. Elas são tão coladas, que qualquer barulho feito na sua casa, o vizinho escuta como se o tal barulho fosse na dele, inclusive no banheiro, isto é o fim do mundo.
O banheiro era para mim a “última fortaleza”, instransponível, tipo aqueles castelos da Idade Média ou a Fortaleza de Rohan (do filme Senhor dos Anéis). Quando adolescente, era lá que eu me trancava para fazer qualquer coisa, inclusive cantar as principais músicas do Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e Titãs. E olha que eu cantava bem. Ele (o banheiro) tinha uma ótima localização e acústica. No final da casa e sem janelas. Era o meu refúgio. Era a melhor meia hora do dia.
Passados alguns anos, casado e ainda sem filhos, o banheiro é para mim, lugar de fazer poucas coisas, entre elas, ouvir rádio AM e cantar as principais músicas do Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii,Titãs e Chico.É, Chico Buarque. Envelheci e fiquei mais calmo também.
Mas se você mora em condomínio é gosta de privacidade está no lugar errado. O meu velho rádio de pilha tem ficar num volume baixo, porque às seis da manhã e onze da noite (meus horários preferidos no banheiro) os vizinhos devem estar dormindo. Cantar no chuveiro nem pensar.
Eu mesmo já fui um dos incomodados pelo barulho produzido no banheiro alheio. Sempre que um determinado vizinho vai para o banho eu falo pra minha mulher: - Olha lá, o cara da casa 120 está gritando de novo no banho, será que ele é maluco? Ela responde. - Sei lá, vai ver é. Não queria ouvir os barulhos feitos pelos meus vizinhos, mas nesses condomínios você escuta de tudo, mesmo que não queira.
Que saudade do meu velho banheiro, pequeno, mas seguro. Um amigo me sugeriu fazer um tratamento acústico no meu banheiro para evitar a propagação do som. Apesar de maluca, achei ótima idéia, quem sabe assim reerguerei as “muralhas da fortaleza” e voltarei a ter aquela velha paz da adolescência.